Xibete's Blog


A complexidade desta actividade que é traduzir…
Outubro 18, 2009, 10:55 am
Filed under: Opiniões

Fazer uma tradução sem consciência cultural é a mesma coisa que jogar pérolas aos porcos ou criar um Frankenstein inútil. Exemplo: o cliente tem uma ideia mirabolante para um novo negócio em outro país. Reúne todo o material de marketing que elaborou em sua própria língua e pede a um tradutor para traduzir esse material para o idioma do país onde a ideia vai ser aplicada. O tradutor traduz sem consciência cultural, sem realmente se envolver na tradução e na ideia do cliente, e a tradução acaba não atingindo seu objetivo de convencer porque deixou de levar em conta as especificidades do público-alvo. Nesse caso houve falta de consciência cultural porque faltou identificar o público-alvo e adaptar a tradução para esse público.

Tradução de currículo é um exemplo típico. Entre um currículo alemão e um currículo brasileiro há grandes diferenças no arranjo e no tipo das informações apresentadas. Então, ao traduzir currículos, o tradutor deveria deixar o cliente ciente das mudanças necessárias na forma e no conteúdo da tradução em relação ao original, para que ela atinja o mesmo objetivo almejado pelo original. Não basta traduzir linha por linha e deixar a formatação como está.

Esse tipo de problema ocorre principalmente em traduções de marketing. Para se vender um produto ou uma ideia, é preciso estabelecer um contato com o público. E se esse contato for truncado por obstáculos culturais (piadas, palavras e alusões culturalmente marcadas e incompreensíveis), então nada feito. Além disso, em traduções de marketing (não só a forma de apresentação do conteúdo, mas o próprio conteúdo, inclusive websites, sumários executivos, catálogos, folhetos etc.), muita coisa escrita para um público falante de um idioma não teria o menor sentido nem utilidade para falantes de outro idioma; então, por que não simplesmente cortar esse material sem sentido ou inútil na versão para outro idioma? Às vezes recebo ofertas para traduzir sites e livros do português para o inglês ou alemão sobre assuntos que nunca interessariam a falantes do inglês ou alemão por serem muito marcados culturalmente, muito identificados com a cultura brasileira. Recuso e às vezes explico por quê, e quando tento explicar costumo receber pedradas dos “clientes” porque eu teria menosprezado a “obra” dele. (Tudo bem, Jorge Amado é culturalmente marcado e nem por isso deixa de ser um dos autores mais traduzidos do país, mas Jorge Amado é literatura, e literatura mexe com outra forma de tradução: a tradução sem fins concretos, que vai ser lida por deleite e prazer e não pretende vender algum produto, nem transmitir algum conhecimento, nem tampouco produzir algum efeito prático – enfim, não precisa “vender o peixe”.)

O problema da consciência cultural acontece em tradução marketing, mas também em tradução jurídica. O formato de uma sentença judicial alemã é completamente diferente do formato de uma sentença brasileira. Na sentença alemã, a divisão do conteúdo obedece a rígidos padrões formais e lógicos; na sentenças brasileiras, os magistrados escrevem como querem, no formato que querem (pelo menos nas muitas sentenças que eu já traduzi). Cabe ao tradutor fazer a ponte entre as duas culturas, levando em consideração as especificidades formais de cada uma, sem prejuízo do conteúdo.

Enfim, cada caso é um caso. Não basta dizer que a forma e o conteúdo do original devem ser adaptados obrigatoriamente na tradução. É preciso observar se há necessidade de adaptação. Afinal, o objetivo da tradução é transmitir uma mensagem, provocar um efeito, e é essa mensagem e esse efeito que devem ter o peso maior na decisão de adaptar ou não a tradução. E, claro, qualquer que seja a decisão, ela deve ser tomada em conjunto com o cliente. Mesmo que o cliente muitas vezes não tenha ideia sobre o trabalho do tradutor ou não conheça suficientemente bem o idioma-fonte ou o idioma-alvo, ainda assim ele deve ser minimamente informado sobre o que vai acontecer com o documento que ele entregou para traduzir (e cuja tradução ele vai tirar dinheiro do bolso para pagar).

É por essas e outras que eu acho que a tradução envolve coisas muito mais complexas do que “simplesmente” traduzir.

Fonte: http://fidusinterpres.com por Fabio Said



Hello world!
Setembro 20, 2009, 2:44 pm
Filed under: Opiniões

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